Ostentação, política e credibilidade pública
O problema da ostentação não está apenas no luxo em si, mas no símbolo que transmite

Existe um fenômeno que há muito tempo deixou de causar o espanto que deveria causar. Políticos que, até poucos anos atrás, levavam vida absolutamente comum passam, em curto espaço de tempo, a exibir padrão de vida incompatível com a realidade da maioria da população. Casas luxuosas, carros caros, viagens frequentes e confraternizações sofisticadas deixaram de despertar questionamentos e passaram a ser tratados como algo normal ao redor do poder político.
Não se trata de criminalizar prosperidade financeira nem de afirmar que toda ascensão patrimonial decorra de irregularidade. O problema é outro: a naturalização social de enriquecimentos acelerados cuja origem econômica muitas vezes sequer é compreendida pela população.
A atividade política municipal historicamente nunca foi associada a enriquecimento rápido. A remuneração de cargos públicos, embora relevante, raramente explica, sozinha, mudanças patrimoniais expressivas em períodos curtos, especialmente quando inexistem histórico empresarial robusto, patrimônio familiar consolidado ou trajetória econômica compatível.
E é exatamente aí que surge o desconforto social. O cidadão comum trabalha décadas para financiar uma casa, parcelar um veículo e construir patrimônio aos poucos, enquanto parte da classe política parece transitar rapidamente para um padrão de vida elevado sem que a população compreenda claramente quais atividades sustentam esse novo cenário.
Isso corrói a confiança pública. Quando a ostentação passa a ocupar espaço maior do que a prestação de contas, deteriora-se não apenas a imagem do agente político, mas da própria política. A desconfiança social não nasce da inveja. Nasce da ausência de transparência espontânea.
Agentes públicos deveriam compreender que patrimônio, padrão de vida e relações econômicas deixam de pertencer exclusivamente à esfera privada quando coexistem com exercício de poder político, especialmente em um país marcado por corrupção recorrente, patrimonialismo histórico e frequente confusão entre interesses públicos e privados. Mais do que questão moral, trata-se de questão institucional.
Órgãos de controle existem justamente para impedir que a relação entre patrimônio privado e poder político se transforme em zona cinzenta permanentemente tolerada. Porque dinheiro público não desaparece no vazio. Quando há desperdício, favorecimento indevido ou utilização inadequada da máquina pública, o impacto aparece nas filas da saúde, na demora de exames, na falta de vagas em creches e no enfraquecimento de políticas públicas voltadas justamente à população mais vulnerável. O problema da ostentação não está apenas no luxo em si, mas no símbolo que transmite: a perigosa sensação de que o acesso ao Estado pode se transformar em mecanismo de ascensão pessoal. E esse jamais pode ser o padrão aceitável de uma República.
A sociedade, por sua vez, também precisa reassumir seu papel permanente de fiscalização social, questionando e exigindo transparência. Porque democracias não se deterioram apenas pela corrupção ativa. Também se enfraquecem quando a sociedade se acostuma a não perguntar mais nada. No fim, transparência não deveria incomodar agentes públicos. Deveria protegê-los.
Rogério César Barbosa
Advogado – São José do Rio Preto.