Trump e Xi Jinping

Diferentemente do período da chamada Guerra Fria – iniciada efetivamente com a divisão das Coreias, em 1949, e encerrada em 1991, com a dissolução da União Soviética e a criação da Comunidade dos Estados Independentes – o mundo passou décadas sem presenciar um confronto direto entre duas grandes potências globais.
Passados 35 anos, entretanto, o cenário internacional voltou a experimentar uma nova disputa geopolítica, muito mais econômica do que militar. Trata-se de uma “guerra fria” contemporânea, marcada por tensões comerciais, tecnológicas e diplomáticas entre Estados Unidos e China.
Ao assumir a presidência norte-americana pela primeira vez, em 2017, Donald Trump estabeleceu como uma de suas principais metas a redução do déficit comercial dos Estados Unidos em relação à China. Para isso, acusou Pequim de roubo de propriedade intelectual, impôs tarifas sobre produtos chineses e ampliou as tensões diplomáticas, especialmente em razão do apoio norte-americano a Taiwan.
Apesar da postura agressiva, Trump não obteve os resultados esperados. Em 2020 acabou sendo obrigado a negociar com o governo chinês para aliviar as pressões sobre a economia dos Estados Unidos.
Durante o governo de seu sucessor, o democrata Joe Biden, as relações com a China foram marcadas por uma intensa competição estratégica. Contudo, houve um cuidado para evitar um conflito comercial aberto contra o governo de Xi Jinping.
Biden manteve as tarifações da era Trump, restringiu exportações de semicondutores avançados para a China e fortaleceu alianças regionais no Oriente. Apesar da rivalidade econômica, os dois países preservaram as linhas diplomáticas abertas.
Com o retorno de Donald Trump à Casa Branca no ano passado, as relações de Washington e Pequim voltaram a se deteriorar rapidamente. O chamado “tarifaço” aplicado por Trump no mundo inteiro, chegou a atingir taxas de 120% sobre os produtos chineses. Em resposta, o governo chinês aplicou sobretaxas equivalentes sobre as mercadorias norte-americanas.
Contudo, a política tarifária acabou produzindo efeitos internos negativos para os Estados Unidos. O aumento dos custos de importação impulsionou as pressões inflacionárias e elevou o preço de diversos produtos no mercado interno, o que levou Trump a acelerar as negociações com os chineses durante o Fórum de Davos, realizado no início deste ano.
Nos últimos anos, a influência comercial dos Estados Unidos acabou diminuindo, enquanto a participação chinesa na economia global passou a ser cada vez maior. Com a tarifação internacional e os discursos pouco diplomáticos de Trump, diversos aliados e parceiros comerciais históricos dos Estados Unidos, passaram a fortalecer o vínculo comercial com outros países, especialmente, com a China – caso emblemático do Canadá.
O setor agrícola norte-americano figura entre os mais impactados pela política comercial trumpista. Houve uma perda de espaço tanto interno, diante do avanço da carne bovina brasileira, quanto no mercado externo, especialmente no caso da soja, cuja exportação brasileira se consolidou como prioridade para os chineses.
Vale ressaltar que parte significativa da base eleitoral de Trump é formada justamente por produtores rurais ligados à soja e à pecuária bovina. Por isso, a questão agrícola certamente deverá ocupar posição central nas negociações entre Washington e Pequim.
Nesse sentido, a visita que Donald Trump iniciará nesta semana à China possui grande relevância estratégica para as suas pretensões governamentais. Pressionado pelo encarecimento do custo dos alimentos e pela alta dos preços dos combustíveis, o presidente norte-americano vê sua popularidade desabar, assim como a sua intenção de vencer as eleições de meio, que ocorrerá no segundo semestre desse ano.
Temas como a revisão das tarifas comerciais, o desenvolvimento da inteligência artificial e o apoio militar norte-americano a Taiwan devem integrar as negociações entre as duas potências.
O que se pode esperar dessas reuniões é um elevado grau de pragmatismo político de ambas as partes. Ainda assim, a China aparenta posição relativamente mais confortável nas negociações.
Andrew Okamura Lima
Historiador e filósofo